J. R. R. Tolkien, o renomado autor da aclamada série de fantasia épica O Senhor dos Anéis, não apenas teceu histórias de bravura, amizade e a luta contra o mal em um mundo ricamente imaginado, mas também refletiu em sua obra a própria natureza criativa da música. Afinal, em sua mitologia, a própria criação de Arda, a Terra-média, se deu por meio da música de Eru Ilúvatar, o Criador. A dissonância e a perversão introduzidas por Morgoth, o primeiro Lorde das Trevas, contrapunham-se à harmonia original, criando um palco para as batalhas épicas e as complexas relações entre o bem e o mal que tanto fascinam os leitores.
Não é de surpreender, portanto, que a obra de Tolkien tenha ressoado com músicos por gerações, inspirando-os a compor suas próprias canções, criando novas melodias em homenagem a este universo rico e complexo. Junte-se a nós enquanto exploramos a música inspirada pela Terra-média, uma jornada sonora que ecoa os temas de luz e escuridão, esperança e desespero, presentes na magnífica criação de Tolkien.
Led Zeppelin
A influência de J.R.R. Tolkien na obra do Led Zeppelin é notória, particularmente na obra de Robert Plant, vocalista declarado fã da obra de Tolkien. “Ramble On”, por exemplo, faz referência direta a Gollum e ao Um Anel, com a letra: “T’was in the darkest depths of Mordor I met a girl so fair But Gollum, and the evil one Crept up and slipped away with her.” (Era nas profundezas mais escuras de Mordor que conheci uma donzela tão bela, mas Gollum e o Maligno se aproximaram e a levaram embora). Outras canções como “Misty Mountain Hop”, possivelmente inspirada no local homônimo em O Hobbit, e “The Battle of Evermore”, que alude à Batalha dos Campos de Pelennor, também demonstram essa inspiração, embora de forma menos explícita. Plant já declarou publicamente sua admiração por Tolkien e o impacto da obra do autor em sua composição musical.
Rush
A banda canadense Rush compôs “Rivendell” (Valfenda), em 1975, uma balada acústica que descreve a cidade élfica de mesmo nome como um refúgio de paz, onde “a escuridão não pode alcançar”. Geddy Lee, vocalista do Rush, é um conhecido fã de Tolkien, tendo até mesmo participado do documentário Ringers: Lord of the Fans para discutir o impacto da obra do autor em sua carreira musical. Outra canção da banda, “The Necromancer” (O Necromante), faz referência a Sauron, utilizando o nome pelo qual ele era conhecido durante os eventos de O Hobbit.
Enya
A cantora irlandesa Enya é reconhecida por sua contribuição na trilha sonora da trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, com as músicas “May It Be” e “Aníron”. No entanto, sua ligação com a obra de Tolkien precede essa colaboração. Em seu álbum Shepherd Moons, de 1991, encontra-se a faixa instrumental “Lothlórien”, inspirada no reino élfico de mesmo nome. A inclusão de Enya na trilha sonora dos filmes se deve à sua reconhecida admiração pela obra de Tolkien, tanto dela quanto de sua letrista, Roma Ryan.
Camel
A banda de rock progressivo Camel criou a suíte instrumental “Nimrodel / The Procession / The White Rider”, uma composição de nove minutos que reconta a transformação de Gandalf de Cinzento para Branco.
Black Sabbath
A música “The Wizard”, de Black Sabbath, de 1970, faz referência a Gandalf, descrito com “roupas engraçadas” e um “sino tilintante”. O baixista Geezer Butler confirmou a inspiração em Tolkien para a composição da canção.
Sally Oldfield
“Songs of the Quendi”, de Sally Oldfield, é uma composição em quatro partes inspirada na história dos elfos. A cantora, conhecida por incluir palavras inventadas em suas canções, foi influenciada pela linguagem élfica criada por Tolkien, a qual ela descreveu como contendo “ecos de seu erudito conhecimento das línguas antigas do mundo”.
Nickel Creek
A banda Americana Nickel Creek compôs “In the House of Tom Bombadil”, uma música instrumental que captura a essência do personagem enigmático de Tom Bombadil, que em A sociedade do Anel vive em seu próprio mundo e frequentemente se comunica através de canções.
Joni Mitchell
A canção “I Think I Understand”, de 1969, de Joni Mitchell contém a frase “Fear is like a wilderland” (O medo é como uma terra selvagem), uma referência à Wilderland de Tolkien, região ao norte da Terra-média onde se situa a Floresta de Mirkwood. Embora obscura, a referência foi confirmada pela própria Mitchell, que associou a “Wilderland” ao medo e à jornada, utilizando-a como metáfora para a vida. Sua admiração por Tolkien era tão grande que ela chegou a escrever cartas para ele e nomeou sua editora musical de Gandalf Publishing.
Megadeth
A canção “This Day We Fight!” de Megadeth, foi inspirada no discurso de Aragorn em O Retorno do Rei, especificamente na frase “We may die tomorrow, but not today. This day we fight!” (Podemos morrer amanhã, mas não hoje. Hoje nós lutamos!). Dave Mustaine, vocalista do Megadeth, inicialmente planejava uma canção sobre tambores e bandeiras em campos de batalha, mas optou pelo tema baseado no discurso de Aragorn.
Conclusão
Assim, da grandiosa concepção musical de Eru Ilúvatar à dissonância de Morgoth, passando pelas baladas épicas que celebram os heróis da Terra-média, a música se revela uma companheira inseparável da obra de Tolkien. Cada nota, cada acorde, cada melodia, ressoa como um eco das histórias que nos cativam há décadas. Seja na grandiosidade sinfônica, na delicadeza acústica, ou na fúria do heavy metal, a inspiração tolkeniana transcende gêneros e estilos, provando a profunda e duradoura influência do autor no mundo da música. A jornada continua, pois a cada nova composição, uma nova faceta da Terra-média é revelada, e a música, ferramenta poderosa de expressão, continua a celebrar a herança indelével de J.R.R. Tolkien.
Que esta exploração musical nos lembre que, assim como a música de Eru Ilúvatar deu origem à Terra-média, a música humana perpetua sua magia e a mantém viva em nossos corações.